[Relato 27]

O meu silêncio te assusta?

Pois a mim, apavora.

O meu grito é mudo, porque as vozes que me habitam, berram. Queria dizer que a guerra é interna, que a desordem mental é tamanha, e apenas me calo. É difícil expor meus sentimentos, começar a contar minha história. Mas preciso contar, eu tenho que contar, isto não pode mais ficar preso na minha garganta prestes a me sufocar a qualquer momento.

Tinha medo de falar para os meus pais, pois ela ameaçava matá-los. O medo de que algo acontecesse enquanto eu não estivesse por perto se transformou em pânico, a ponto de obrigar minha mãe a ir comigo para a escola, sem desconfiar do que me apavorava de verdade. O que já era ruim foi ficando cada vez pior, tão insuportável que meu cérebro teve que agir para me proteger.

Durante sete anos, tudo o que aconteceu naquela época da minha vida ficou apagado. Até o dia em que a cena de um estupro, na série que eu estava assistindo, desbloqueou todas as lembranças e me fez chorar, alucinadamente. Tenho muita culpa dentro de mim e sei que não deveria. Com apenas quatro anos, não sabia o que estava acontecendo. Até os dez, ela maltratou meu corpo, invadiu-o sem minha permissão. Muitas vezes ela colocava filmes pornôs e se masturbava, olhando-me. Eu gritava por dentro, com desespero, e ao mesmo tempo não entendia nada, ficava imóvel. Sem reação. O medo e o nojo tomavam conta de todo meu corpo. Calavam-me.

Hoje eu tenho 17 anos e ainda sonho com ela me acordando na madrugada, suas mãos tocando minhas partes íntimas. Sempre que alguém tenta se aproximar, as cenas que não saem da minha cabeça voltam a me desesperar e caio no choro. A luta contra esses pensamentos é constante e insuficiente. Foram tomando a forma de depressão, de pânico, de ansiedade generalizada. A bulimia que desenvolvi, que me faz engolir o mundo, para logo depois vomitar, é uma forma de “colocar tudo pra fora”. Não quero me tornar igual a ela, mas maltrato meu corpo, repito o que ela fazia. Nas vezes em que tenho que reencontrá-la, seria bem mais fácil desaparecer.

Mesmo que minha tia tenha iniciado toda essa guerra na minha cabeça, nunca vai levar a culpa. Abusou de mim, da minha irmã e do meu primo e tudo fica assim (para quem não sofreu com isso, lógico), porque seus problemas mentais justificam todo o horror.

Mas eu não aguento mais!

Relato de uma leitora anônima, reescrito por Ana Luiza Tonietto Lovato

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s