[Relato 28]

Era meu primeiro namoro e ele era consideravelmente mais velho do que eu. Ao menos na superfície, ele parecia ser de total confiança: primo da minha melhor amiga, eu conhecia a família dele e todos o pintavam como um bom moço, trabalhador, responsável e excelente partido. 

 

Em menos de um mês ele começou a forçar a barra para que o sexo rolasse. Eu tinha dezesseis anos, nenhuma experiência sexual, e ele dizia com frequência que já estava na hora. A todo momento ele passava a mão em mim e me forçava a tocá-lo por cima da roupa e a olhar para seu corpo. Por mais que eu tirasse a mão, ele ria e a colocava novamente, quase como se fosse um jogo macabro e eu, sua presa.

 

Comecei a sentir medo de ficar sozinha com ele. Minhas amigas falavam que era normal; que ele, por ser homem, iria mesmo fazer esse tipo de coisa. Eu me sentia boba e infantil, não merecedora de um homem cujos desejos tão naturais eu não conseguia suprir. 

 

Então, mesmo sabendo que eu era virgem, ele começou a verbalizar sua necessidade de sexo e a fazer disso uma chantagem. Dizia que se eu o amava e confiava nele, deveríamos transar; caso contrário, era sinal de que eu não o amava e, dessa forma, não deveríamos estar juntos.  

 

Querendo agradá-lo, matei aula um dia e o recebi na minha casa para que acontecesse o que ele queria.  Coloquei na minha cabeça que aquilo deveria ser uma experiência incrível – para ele! Eu não desejava transar e estava consciente disso, mas achava que era o preço a se pagar por ter um namorado tão bom.

 

Ele chegou mudo e já foi deitando por cima de mim. Eu senti muita vontade de chorar assim que coloquei meus olhos nele, mas segurei o choro. Sem cerimônias, quase nenhum beijo, ele arrancou minha roupa e foi com tudo. Gritei de dor e pedi para ele parar. Ele então cuspiu na sua mão (uma das cenas que mais me causa repulsa ao lembrar), passou em mim sua saliva sem delicadeza alguma e continuou, em meio ao meu choro que ele sequer viu – ou preferiu não ver.

 

Durou horas. Eu me lembro disso porque ele me levou para vários cômodos e eu vi o tempo passando nos relógios da casa. 

 

Meu corpo todo tremia, eu estava com tanta dor que, por sorte, em dado momento, parei de sentir o que me acontecia da cintura para baixo. Mesmo assim, eu me esforçava para fingir que gostava daquilo ou que sabia o que estava fazendo, enquanto as lágrimas escorriam sem que eu pudesse controlar. Ele percebeu o choro muito, muito tempo depois, quando se dignou a olhar para o meu rosto e então perguntou: “Você tá chorando?” e eu disse “Estou emocionada.”. Ele apenas riu.

 

Por fim, depois de ter terminado aquele inferno, ele ficou me olhando com uma cara estranha. Soltou então as frases de que nunca me esqueci: “Nem sangrou, você fez bem direitinho. Vem pra cima de mim dizer que era virgem? Você tá de sacanagem, né?”.

 

Me esforcei tanto para que fosse bom para ele e ele interpretou aquilo como se eu fosse experiente no sexo! Me culpei demais por supor que eu havia feito com que meu namorado não se sentisse especial, não se sentisse o primeiro e o único. Comecei, em pensamento, me chamar de puta e depravada por não ter me portado como uma virgem.

 

Assim que ele foi embora, tomei um banho a fim de voltar para a escola à tarde, pois eu estudava em período integral. Sentia tanta dificuldade de andar que ficava me escorando nos muros, nas paredes, nos corrimões, nas mesas. Chegando lá, meus colegas perceberam que eu não estava bem, principalmente pelo meu modo de caminhar, e uma das minhas amigas cometeu a maldosa indiscrição de dizer que era porque eu tinha perdido a virgindade. Fiquei por meses com o apelido de “arrombada”, sem que ninguém pudesse imaginar que era minha alma que estava real e profundamente arrombada.

 

Consegui terminar o namoro cinco meses depois: cinco meses de abusos que eu aceitei por supor que aquilo fosse normal, por acreditar que ele, sendo meu namorado, tinha direitos sobre mim. Eu me acostumei a ouvir a frase: “Você não goza porque algumas mulheres nunca gozam mesmo”.

 

Depois dele, tive mais um relacionamento abusivo e outros breves e horríveis por eu não me achar merecedora de nada bom, afinal, eu supunha ser corrompida e estragada. Demorei anos para saber que o problema não era eu e só aos vinte e um, depois de fazer terapia e de ler muitos artigos e depoimentos na internet sobre estupro, entendi que um companheiro pode te violentar e que eu fui vítima disso.

 

Hoje me permito ter um relacionamento incrível com um homem maravilhoso que se dispôs a me ouvir, a me conhecer e, principalmente, a esperar até que eu me sentisse confortável para ter relações sexuais, coisa que demorou alguns meses.

 

Hoje sou uma mulher que goza e tenho certeza de que qualquer mulher pode alcançar esse prazer no sexo. Eu confio, relaxo e sei que, acima de qualquer coisa, tenho de estar sempre confortável e sentindo prazer.

 

Eu sou só minha, mas aceito visitas – desde que sejam selecionadas pelo meu, hoje  exigente, amor próprio.

 

 Relato de uma leitora anônima, reescrito por Stella Florence.

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2 pensamentos sobre “[Relato 28]

  1. Fui abusada sexualmente quando criança, dos 4 aos 8 anos por um vizinho e esses episodios se repetiram quando tive o meu primeiro namorado. Ao ler esse depoimento parece que voltei no passado aonde tive uma experiência parecida. Achava normal os abusos e a agressividade dele, afinal ele tinha vontades e era obrigação minha como namorada suprir elas , se queria me casar com ele. Não achava que aquilo era um estupro afinal ja tinha vivido isso e foi de uma forma diferente. Não conseguia terminar com ele, pensava que o fato de ele ser tão ciumento e não me deixar fazer nada é porque ele me amava muito, e como ele dizia eu nunca ia encontrar alguém tão maravilhoso como ele. Isso tudo só acabou depois que o meu pai viu ele me tratando mal e me impediu de namorar com ele, na época sofri, mas no fundo eu sabia que estava me livrando do meu abusador. Hoje tenho a sorte de ter encontrado um homem que me respeita, que esperou o momento certo, e agora eu consigo entender que tudo aquilo que me faz mal não deve pertencer a minha vida.

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    1. Sentimos muito. Infelizmente são histórias que se repetem diariamente. Nosso objetivo, além de dar voz às vítimas, é mostrar que não estão sozinhas e que estamos aqui para ouvir, gritar e acolher.
      Se tiver vontade de nos escrever para que publiquemos seu relato reesscrito por um dos parceiros do projeto, estamos à disposição.
      Um grande abraço,

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