[Literatura]

O texto a seguir é um conto. Apesar de ser um texto ficcional, publicamos ele aqui, com autorização do autor, por acreditarmos que ele retrata os sentimentos de inúmeras vítimas de abuso e violência sexual – sentimentos ruins que, esperamos, sejam superados com o apoio de muitas pessoas que estão prontas a ouvir e ajudar. O isolamento e o silêncio não são o caminho.

 

░▒▓

 

Ele era uma pessoa de sorte.
Tinha um emprego que muitos sonhavam, era apresentador de um programa de TV, transmitido ao vivo num canal de TV.
Segundos antes de entrar no ar, veio uma imagem da sua infância.
O produtor do estúdio falou, faltam 10 segundos para entrar no ar: 10, 09, 08 … 07…06…
Fechou os olhos para se concentrar… e as falas começaram a se misturar… e veio a imagem guardada no fundo do seu inconsciente… ele estava sendo arrastado para um porão, por um menino uns 6 anos mais velho, que dizia… vou te dar cinco segundos para tu entrar no porão e se falar algo, vou matar teus pais…. 5… 4… 3… 2… 1.
O menino que sonhava em trabalhar na televisão, fechou os olhos, assustado e entrou no porão.
Quando abriu os olhos estava num estúdio de TV, com a câmera apontada no seu rosto, e ficou assustado com o fato de milhares de pessoas estarem o vendo aquele momento, fragilizado.
Ficou quieto… e o produtor fazia sinais… e dizia… no ar…
No seu ouvido o diretor gritava no ponto… no ar… e ele, mais uma vez sorriu e começou o programa de uma hora, com um falso sorriso no rosto.
Fingiu que nada havia acontecido.
Nunca havia falado sobre o assunto.
De certa forma não sabia se aquilo era real, se era uma imagem que tinha inventado.
Nunca soube ao certo o que teria acontecido naquele porão escuro.
Não sabia determinar a idade que tinha. Quando se é criança, não se tem a noção do que acontece. Pode-se nem saber que houve um ato libidinoso, um abuso sexual.
Mas essas imagens começaram a vir na cabeça dele, sempre antes de entrar no ar, ao vivo, no programa de TV.
Às vezes vinha como num filme e começaram a ficar cada vez mais claro os detalhes.
E, cada vez mais, demorava pra dar o boa noite para os telespectadores.
Fingiu para os seus colegas que fazia parte da concentração. Sempre fingiu, pra si; fingiu antes, depois, fingiu a vida inteira.
Virou um tormento.
Mas ao mesmo tempo foi ficando cada vez mais famoso, conhecido por onde ia, mas tomado de uma tristeza tão grande.
Nunca havia contado isso para as pessoas mais importantes da sua vida.
Começou a sentir uma culpa. Culpa de algo que nem sabia.
Não ficou com raiva do abusador, nem vontade de falar com ele, nada disso.
O que ele queria mesmo é que isto não tivesse acontecido na sua infância.
Mas aconteceu. Acreditou que o abuso tinha interferido em várias etapas da sua vida, mas de certa forma, profissionalmente tudo estava dando certo.
Ele não tinha do que reclamar, tinha o emprego mais legal do mundo, conhecia grandes cabeças, artistas, poetas, escritores, músicos e tanta gente que foi fã de carteirinha durante a sua adolescência e infância.
Mas não podia esquecer.
E um dia, depois do programa, foi para casa de um amigo e sozinho na sacada, começaram a vir outras imagens desta violência sexual.
Detalhes assombrosos.
Se segurou na sacada do quarto andar, chorou e entrou de vez na escuridão do porão.

 

Bob Bahlis é dramaturgo, diretor teatral e professor de Artes Cênicas. Vive em Porto Alegre, RS, e autorizou a publicação de seu conto no site do PODE GRITAR.

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