[Relato 29]

Foram dois assédios, dois abusos em menos de um ano. Ambos ocorreram quando eu usava o aplicativo Tinder, e as duas histórias me marcaram bastante. Fiquei com pavor de aplicativos de relacionamento, precisei procurar um psiquiatra, uso medicação contínua e hoje tenho fobia social.

 

Não via problema em conhecer pessoas e fazer amizades por meio de aplicativos. Já fazia mais de um ano que eu usava o Tinder quando ocorreu o primeiro caso, em julho deste ano. Após nos ‘conhecermos’ pelo App, eu e um rapaz começamos a conversar pelo WhatsApp. Ele estava na minha cidade, falamos sobre várias coisas, até chegar num ponto mais íntimo, experiências sexuais. Mesmo constrangida, contei algumas coisas, e ele me falou que era adepto da BDSM. Nunca tinha ouvido falar nisso e resolvi pesquisar, fiquei assustava com o que descobri na internet, práticas eróticas ou sexuais mais ousadas do que as que eu conhecia. Mas continuamos a nos falar. Alguns dias depois ele me enviou fotos com conteúdo de fetiches sexuais e brinquedos, dizendo que queria usá-los todos comigo.

 

Dias após nos conhecemos pessoalmente, quando eu saía de uma festa. Sentados no meio fio da rua, conversamos e aconteceu nosso primeiro beijo, bem normal. Porém um ato dele depois me deixou apreensiva: ele colocou a mão na minha boca e falou ao meu ouvido.

 

Ainda na mesma noite fomos para a casa de um amigo dele, mas não aconteceu nada, apenas dormimos um ao lado do outro. No dia seguinte quando acordamos, conversamos nós três e o tal amigo tinha um compromisso. O rapaz a quem acompanhei também iria para o mesmo local, porém ficou de ir um pouco depois. Nos beijamos mais algumas vezes, e o assunto BDSM voltou a ser tema da conversa dele. Já estava receosa e fiquei ainda mais quando ele tirou de uma gaveta uma larga fita e me obrigou a juntar os pulsos para que me amarrasse forte. Fez o mesmo com minhas pernas. No meu desespero pedia para que ele me soltasse, mas ele apenas ria. Me soltou somente depois de ter se arrumado para ir ao encontro do amigo.

 

Fiquei completamente perturbada. Recorri a um amigo, lhe mandei uma mensagem, ele me fez várias perguntas, e acabamos descobrindo que o rapaz que estava comigo já tinha feito o mesmo com uma ex do meu amigo. Dias depois, esse mesmo cara me enviou uma foto em que ele usava uma meia-calça cheia de fios. Assim como antes, a legenda dizia que queria usar aquilo comigo. Me assustei de novo, o bloqueei e foi a primeira vez que suspendi o uso do Tinder.

 

No início deste mês reativei minha conta no App. Outro sujeito viu meu perfil e me procurou diretamente no WhatsApp. Na minha biografia havia uma frase para que a pessoa descobrisse a mim e ao meu número. Foi o que ele fez. Conversamos por vários dias, estávamos nos conhecendo melhor, e numa noite me perguntou se podíamos fumar um baseado perto de minha casa. Nos encontramos na frente de onde moro e saímos fumando. A conversa seguia amigável, pediu sugestão de algum lugar para irmos, como eu não tinha nenhuma, ele decidiu. Fomos para um lugar, que só descobri no dia seguinte, era um drive-in. Estava escuro, apenas uma luz fraca acesa no carro, eu estava sob efeito da maconha. Lembro que ele deixou uma das portas traseiras aberta e inclinou os bancos da frente para ficarmos mais confortáveis no banco de trás.

 

Eu estava mais sensitiva, e toda vez que ele se aproximava de mim, tinha a sensação de desconforto, pedia para me deixar respirar. Achava que meu nariz estava sangrando. Eu não estava bem, me sentia estranha, mas ele ignorou meus apelos. Percorria meu corpo com suas mãos, ergueu minha blusa, tocou e lambeu meus seios. Também tentou tirar minha carteira do bolso, dizendo que ia guardar para que eu não perdesse.

 

Fiquei desesperada, queria ir embora daquele lugar, mas ele debochava e me disse frases grosseiras. Tive a sensação de que poderia morrer ali. Me deu água e perguntou o que eu tinha, apenas queria sair dali. Furioso, ele atendeu meu pedido. No meio do caminho ele mexia no GPS e eu comecei a surtar, achando que ele estava apagando a rota da minha casa. Tive verdadeiro pavor, meu corpo todo tremia. Voltei para casa me sentindo um lixo, me culpando por ter me posto em risco mais uma vez. Bloqueei o número dele no WhatsApp, excluí a conta no Tinder. Foi depois disso que resolvi procurar ajuda psiquiátrica, tenho medo, transtorno de personalidade e me sinto invisível.

 Relato de uma leitora anônima, reescrito por Ana Paula Figueiredo.

 

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