[Crônica]

ESTUPRO E ABUSO INFANTIL: TENHO UM PEDIDO A FAZER

Stella Florence

 

Quero te pedir uma coisa. É delicado, eu sei, mas preciso fazer isso, assim, olhando nos seus olhos. Mas antes vou te contar uma das mais emocionantes situações pelas quais passei como escritora.

Após o lançamento do romance ficcional “Eu me possuo”, que trata da superação de um estupro, eu recebi ainda mais e-mails do que de costume de leitoras confidenciando as violências pelas quais passaram. Dentre esses relatos, quero expor um em particular.

Uma moça, casada há alguns anos, me contou os abusos que sofreu de um familiar por toda a infância. Inspirada pela carta que minha personagem, Karina, escreve ao seu estuprador, ela decidiu escrever uma carta também, não ao seu abusador, que já estava morto, mas ao seu marido, narrando tudo pelo qual ela havia passado, tudo que ele não sabia e que acabava por desaguar na vida íntima de ambos. A carta foi escrita e entregue, no entanto o marido permaneceu dias sem tocar no assunto. Por fim, quando minha leitora começava a cristalizar em si uma nova mágoa, o marido a procurou para conversar a respeito da carta. Ele então disse que a amava, que ficou muito abalado e em silêncio todo aquele tempo não só pelo drama que ela atravessara, mas porque ele também havia sido molestado sexualmente na infância. Acredito que ambos iriam se conectar nesse nível mais profundo, sem segredos fundamentais, em algum momento de suas vidas. Talvez o gatilho dessa revelação dupla fosse um filme, a palavra de um amigo, uma palestra, uma canção, mas eu me sinto tão honrada de que tenha sido um livro meu! É por isso que eu preciso te fazer esse pedido. Se você foi abusada (ou abusado) na infância, se foi estuprada na vida adulta, se sofreu violência sexual e se essa violência deixou traumas, considere seriamente contar para o seu parceiro (ou parceira) o que aconteceu. Conte. Sonegar esse esclarecimento é manter um muro invisível entre vocês, é causar a impressão mentirosa de que você é uma loucura de estimação, para ele, inacessível. Sonegar esse esclarecimento é causar a falsa ideia de que o problema é ele. Sonegar esse esclarecimento é deixá-lo sem elementos para te ajudar, para te acolher. Além disso, há a possibilidade concreta de que tal violência também tenha acontecido com ele e ele sinta a mesma dificuldade que você (ou ainda maior) para revelar algo tão delicado.

Seja lá o que tenha acontecido, independente das circunstâncias, você não tem nada do que se envergonhar. Quem tem de se envergonhar é quem comete a violência, não quem a sofre. Você já ouviu falar em cultura do estupro? A palavra cultura vem do latim e significa “cultivar”. Uma cultura do estupro, portanto, que é filha do machismo, significa o cultivo de ideias, palavras e atitudes que mantém esse tipo de violência. É claro que a maioria do povo brasileiro repudia o estupro, no entanto, sem perceber, cultiva no seu dia-a-dia valores e práticas que o mantém.

Uma dúvida, porém, surge: como pode o machismo ser o pai da cultura do estupro se uma parte das vítimas é feita de meninos e homens? A resposta é simples e triste: seja quem for o agressor, ele submete a vítima, a viola, a invade, a expõe, a humilha, colocando-a, de acordo com os valores machistas, na posição de mulher ou, como se diz vulgarmente, “mulherzinha”. (Para quem supõe que o machismo não prejudica meninos e homens, recomendo vivamente o documentário “The mask you live in”).

O silêncio e a vergonha da maioria das vítimas são a prova da existência de uma cultura do estupro. Sua mais forte característica é distorcer os fatos para colocar, sempre, a culpa em quem sofreu a violência. E tem mais: o homem (e a mulher) que coloca a culpa na vítima está afirmando que é capaz de estuprar, caso se sinta provocado. Ora, se ele acredita que não é o estuprador o responsável pelo crime, então ele também pode estuprar se tiver a infelicidade de encontrar uma criatura insinuante e provocadora pela frente, não é? A verdade é que se todas as vítimas de estupro fossem marcadas por uma lâmpada acesa sobre suas cabeças, não haveria mais noite no mundo. Sim, estamos vivendo uma epidemia. E o primeiro passo para lidar com ela é esse: acordarmos. E usar a sua voz, na intimidade ou de forma pública, faz parte desse necessário e bem-vindo despertar.

Stella Florence é escritora. Sua profícua produção inclui onze livros, dentre os quais “Eu me Possuo” (romance sobre superação de um estupro), “Os Indecentes”, “32 – 32 anos, 32 homens, 32 tatuagens”, “Hoje Acordei Gorda” e “O Diabo que te Carregue!”. Florence mantém colunas de crônicas em seu blog pessoal e no portal Exnap, além de ser escritora voluntária do projeto Pode Gritar. A pedido do #PODEGRITAR, a escritora gentilmente cedeu esta crônica, de seu mais recente livro, “Loucura de Estimação (crônicas de amor e sexo) [eGaláxia, 2018], para publicação em nosso site.


Clique na imagem ao lado para comprar o livro de crônicas Loucura de Estimação, de Stella Florence, exclusivamente em formato eBook, em publicação da editora e-Galáxia.

Em seu mais recente livro, Stella Florence disseca as paixões românticas não correspondidas que se transformaram em intermináveis e desejadas torturas. Cronista veterana e dona de um verbo ácido, Stella não economiza verdades ao longo de 50 crônicas. Também não falta em Loucura de Estimação a voz altiva da mulher que conhece muito bem o seu valor.


 

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